O objetivo desse artigo
é relacionar os princípios da arte e voltá-las ao uso no desenvolvimento de paisagens aquarísticas. Porém, antes de definir o que esse artigo é, primeiro vou deixar bem claro o que esse artigo não é. O que você está lendo
agora não é um manual técnico ao estilo “how-to”. Esse artigo não irá ensinar como montar uma boa paisagem
aquática na forma de passo-a-passo, nem como podar plantas, nem como distribuir rochas e troncos.
E mais: esse artigo não é a melhor opção para um iniciante começar a aprender sobre paisagismo aquarístico, pois você freqüentemente irá deparar-se com termos já conhecidos por aquaristas que tenham um conhecimento ao menos básico na construção de paisagens aquáticas.
E, por fim, por favor, não considere esse artigo como “uma nova técnica” para a construção de paisagens aquarísticas, apenas
uma nova visão. Eu não arriscaria em sobrepujar as já conhecidas técnicas utilizadas pelo aquarista e fotógrafo Takashi Amano simplesmente pelo fato de eu não ter conhecimento nem cacife para tanto. Inclusive, várias montagens do Sr. Amano serão analisadas de forma artística - tal qual são analisadas pinturas sobre tela - ao longo desse artigo.
Você já se perguntou por quê considera determinados trabalhos artísticos bonitos e interessantes? Por que considera uma música tranqüila e agradável, ou outra caótica ou agressiva? Por que, ao observar uma pintura, freqüentemente você percebe a sensação que o artista quis transmitir quase que instantaneamente? A resposta é simples e até óbvia: desde os tempos mais primórdios, a arte tem um poder surpreendente sobre nosso psicológico.
A arte basicamente é constituída de elementos que se relacionam de forma a transmitir uma mensagem ao expectador. Os diversos tipos de arte, seja a pintura, a escultura, a fotografia, a música, possuem técnicas e princípios que a definem e identificam. Essas técnicas auxiliam o artista na tarefa de trabalhar os elementos que compõe sua forma de arte em questão. No caso do paisagismo aquarístico, isso se refere às cores, formas e velocidade de crescimento das plantas, bem como forma e textura dos elementos inertes, bem como tamanho, nível de atividade e comportamento dos peixes, etc.
Quando o artista trabalha esses elementos, nós respondemos com sensações que a obra de arte nos provocou. É praticamente uma situação de ação-reação. Em outras palavras, arte é comunicação.
O artista nos fala, nós captamos a mensagem e reagimos com nossa compreensão, interesse ou emoção. Se, no entanto, o artista utilizar-se de uma linguagem que não possamos interpretar, a mensagem não é transmitida corretamente, e a obra de arte perde seu interesse, seu objetivo, deixando de ser um trabalho artístico completo.
A gramática e o vocabulário artístico são elementos artísticos frequentemente mencionados na literatura especializada,
principalmente em artes plásticas, mais precisamente na pintura acadêmica, que utiliza os fundamentos da arte com mais
disciplina e rigor. A linguagem artística é a base para saber utilizar-se dos elementos disponíveis, no caso do aquário,
plantas, peixes, invertebrados e elementos inertes.
A linguagem artística não difere em nada das demais linguagens, possuindo em sua base a gramática e a sintaxe. Além disso,
boa parte das regras possuem exceções e alternativas criativas para tornar a comunicação mais fácil e objetiva. Sendo assim as regras da linguagem artística são bastante flexíveis.
Levando isso em consideração, o paisagismo aquarístico não é diferente da pintura, da música, da fotografia ou de qualquer outra vertente da arte. Apenas os elementos e recursos utilizados são diferentes. Como em outras formas de arte, no paisagismo aquarístico existem regras que auxiliam o trabalho do artista/aquarista em criar o que é belo, harmonioso e agradável aos olhos do expectador, bem como conseguir comunicar suas expressões e provocar as sensações desejadas a quem admira o aquário.
Como vimos acima, para que você construa um design artístico (leia-se: agradável e provocativo aos olhos do expectador), é preciso compreender
o que as formas, cores e texturas dos elementos artísticos querer dizer. Essa é a linguagem artística. Para iniciar, é preciso conhecer alguns elementos básicos dessa comunicação. Ao conhecer esses princípios, você pode controlar como os elementos se comunicam entre si e para o expectador. Se você não compreende essa linguagem artística, não entende como os elementos se encaixam, a paisagem torna-se confusa e desarmoniosa.
Esses princípios são utilizáveis não só em aquários, mas também em qualquer forma de arte, como música, dança ou fotografia,
por exemplo. Sendo tão complexo, esta será apenas uma introdução à linguagem artística.
[Obs.: Alguns autores dividem a linguagem artística em gêneros, macho ou fêmea. Essa divisão torna-se mais fácil a
identificação dos diversos elementos (vivos ou não) que podem compor um aquário. Os dois gêneros, completamente opostos,
podem ser utilizados juntos ou separados, conforme veremos adiante.]
Uma parcela significativa do vocabulário básico da comunicação artística é encontrada nas linhas e nas formas. inclusive,
isso se aprende em aulas de Educação Artística no Ensino Fundamental. Tais definições são um tanto “universais”, tidas
como “leis”, ou regras fixas, em qualquer forma de arte, independentemente da cultura. Para que a comunicação se torne
eficaz, é imprescindível conhecer esse vocabulário básico.
Segue um glossário básico visual de linha e forma:
Concluímos então que, utilizando a técnica dos gêneros:
Formas Femininas: Arredondadas, que significam lentidão, felicidade, informalidade, calma, delicadeza, instabilidade.
Ex. Decorações "Fêmeas": Troncos lisos e longos, rochas roladas de rio.
Ex. Plantas "Fêmeas": Cardamine lyrata, Riccia fluitans, Nymphoides cristata, Micranthemum umbrosum, Glossostigma elatinoides.
Ex. Peixes "Fêmeas": Matogrosso, Rásbora Arlequim, Rosáceo, Tetra do Congo, Acará Disco, Apistogramma Borelli, Melanotaenias.
Formas Masculinas: Angulares e retas. Toma-se como base principalmente as nadadeiras. Inspiram atividade, agilidade,
esforço, aspereza, estabilidade.
Ex. Decorações "Machos": Troncos angulares, com diversos furos, extremamente irregulares; rochas com pontas e arestas.
Ex. Plantas "Machos": Microsorum pteropus, Vallisneria sp., Vesicularia dubyiana.
Ex.: Peixes "Machos": Corydoras, Cascudos, Apistogramma cacatuoides, Chilodus, Tetra Imperador, Paracheirodon sp.
Você pode utilizar essa definição básica do glossário acima ao montar o layout do paisagismo geral do aquário, parte dele,
ou na escolha das plantas ou da fauna. Você ainda pode escolher uma dessas linhas e formas para compor a base do paisagismo,
e utilizar outras formas para compor planos secundários, inspirando vários significados para a sua paisagem. De qualquer forma, os elementos devem ser compatíveis com a(s) sensação(ões) que você deseja provocar ao expectador.
As linhas e as formas são umas das características mais importantes na construção do design aquarístico, pois elas são a base para o desenvolvimento da composição. Uma composição harmônica é aquela que faz com que todos os elementos trabalhem juntos para a beleza da paisagem, sem competição, integrando-se uns aos outros e agindo como um só, tal qual numa sinfonia.
Ao seguir com o texto, você poderá observar que um elemento contém características dos dois gêneros. Uma corydora, por
exemplo, possui forma masculina, mas se for albina, terá cor feminina, e assim por diante. Sendo assim, leve em consideração a ordem da importância: linhas e formas – cores – textura.
As cores são talvez uma das características mais completas na montagem de um paisagismo. Sendo assim, não explicarei
técnicas de cores (cores quentes, cores frias, pastéis, etc), pois precisaria de um artigo inteiro para explicar apenas isso... De qualquer forma, um glossário para as cores seria algo assim:
Cores Femininas: Sempre mais claras e iluminadas. Poucas plantas vermelhas fazem parte desse gênero. Inspiram feminilidade, delicadeza, felicidade, informalidade.
Ex. Decorações "Fêmeas": Boa parte das rochas roladas de rio são claras. Como visto acima, troncos lisos, mesmo escuros, continuarão sendo elementos fêmeas.
Ex. Plantas "Fêmeas": Riccia fluitans, Micranthemum umbrosum, Glossostigma elatinoides, Rotala wallichii, Heteranthera zosterifolia, Eleocharis minima, Blyxa sp.
Ex. Peixes "Fêmeas": Peixes brancos, azuis ou amarelos, bem como exemplares albinos.
Cores masculinas: Cores mais escuras, ou opacas. Quase todas as plantas vermelhas são masculinas.
Ex. Decorações "Machos": Troncos recortados e irregulares, escuros, rochas escuras.
Ex. Plantas "Machos": Microsorum pteropus, Cryptocoryne wendtii, Egeria sp., Ludwigia grandulosa, Nymphaea sp.,
Vallisneria sp., Vesicularia dubyiana.
Ex. Peixes "Machos": Peixes escuros, pretos ou vermelhos.
Como no caso das cores, há muitas formas de comunicação. Algumas observações básicas são:
Texturas Femininas: Mais delicada e lisa. No caso dos peixes, isso significa pequenas escamas; no caso das plantas, trata-se de folhas menores e delicadas.
Ex. Decorações "Fêmeas": Troncos lisos e rochas com superfície lisa.
Ex. Plantas "Fêmeas": Quase todas as plantas de folhas arredondadas ou finas e/ou que formam moitas enquadram-se nessa categoria, como Rotala sp., Riccia fluitans, Vesicularia dubyiana, Glossostigma elatinoides, Blyxa sp., Bacopa sp., Micranthemum umbrosum, Hemianthus micranthemoides, Eleocharis minima, Heteranthera zosterifolia.
Ex. Peixes "Fêmeas": Rásboras, Tetras (com exceção do Tetra do Congo), Lebistes, Acará Disco.
Texturas masculinas: Forte e grosseira, inspiram força e robustez. Em plantas, significa textura “enrugada”, ou lisa, mas com folhas largas e/ou firmes e veios aparentes.
Ex. Decorações "Machos": Troncos recortados e irregulares, escuros, rochas escuras.
Ex. Plantas "Machos": Microsorum pteropus, Egeria sp., Nymphaea sp., Vallisneria sp., Vesicularia dubyiana, Anubias sp., boa parte das Cryptocorynes, Echinodorus sp., Aponogeton sp.
Ex. Peixes "Machos": Peixes com escamas notáveis, como Barbos, Acará Bandeira, Tetra do Congo, Cascudos e Corydoras.
Para criar um design coeso, pode-se escolher um grupo de plantas de apenas um gênero (macho ou fêmea) para compor a fauna do aquário. Essa técnica é muito bem sucedida em aquários holandeses. No caso do Nature Aquarium, no entanto, é comum criar um ambiente “caótico” misturando-se os dois gêneros.
1. OBSERVAÇÕES A SEREM CONSIDERADAS
2. ARTE = COMUNICAÇÃO
3. LINGUAGEM ARTÍSTICA
3.1. Linha e Forma
Composição Vertical
Força, Confiança, Solidão

Companheirismo, Similaridade, Uniformidade

Rigidez, Robustez, Agrupamento, União

Família, Mãe-Filho, Proteção

Composição Perpendicular
Estabilidade, Equilíbrio, Masculinidade

Disjunção, Diferença, Barreira

Estabilidade, Interrupção

Composição Inclinada
Movimento linear, Dramaticidade

Ação

Explosão, Crescimento


Estabilidade, Perspectiva

Instabilidade

Composição Horizontal
Calma

Composição Inclinada
Naturalidade, Calma, Estabilidade, Maturidade

Preguiça, Lentidão, Relaxamento, Perspectiva

Naturalidade, Espontaneidade, Felicidade

Alcance, Naturalidade, Jovialidade

Descida, Queda, Velhice, Cansaço

Suspensão, Velhice, Cansaço, Tristeza

Fluência, Calma, Ritmo, Feminilidade

Composição Angular
Atividade, Energia, Agilidade, Masculinidade

Ferocidade, Energia, Caos, Tortura

Conflito, Confusão, Caos, Raiva

Composição Esférica
Integridade, Completo, Maturidade

3.2. Cores
3.3. Textura



4. O QUE VOCÊ QUER COMUNICAR COM SEU AQUÁRIO?
Essa é a primeira coisa que você deve definir ao escolher utilizar o aquário como meio artístico. Caso contrário, o aquário não se tornará interessante, artisticamente falando.
A resposta á pergunta acima pode variar muito, já que cada artista deseja provocar sensações diferentes, possuindo estilos e tendências variados. No entanto, existem algumas regras básicas a serem seguidas da arte do design aquarístico, que são fixas, independente do artista ou seu aquário.
4.1. Ênfase
Um dos objetivos ao construir uma paisagem, especialmente natural, é retratar a perfeição, utilizando as ferramentas já citadas anteriormente. Toda paisagem possui uma base, freqüentemente chamada na aquariofilia de ponto focal, em outras formas de arte pode ser conhecida como “ponto de fuga”, “centro” ou “ênfase”. Essa técnica, muito conhecida e há tempos utilizadas, consiste em escolher uma região (utiliza-se técnicas diversas pra isso, como Proporção de Ouro, etc.) onde se trabalhará exagerada e grosseiramente uma ou mais características da comunicação artística, seja(m) ela(s) linhas e formas, cores ou textura. Essa técnica pode dar a impressão que causará um desequilíbrio na composição, mas surpreendentemente isso não ocorre. Tanto que essa técnica vem sendo utilizada há tempos pelos aquaristas mais talentosos do mundo todo.
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Frequentemente se vê em obras de arte a enfatização do lado esquerdo. A conhecida técnica "Proporção de ouro" é uma das ferramentas para trabalhar tal região. No quadro "Noite Estrelada", de Van Gogh, os cipestres à esquerda são exageradamente destacados, sua rigidez contrasta com a calmaria do vilarejo ao fundo e com o caos celestial. O mesmo se nota nessa montagem de Takashi Amano, onde a força da rocha se destaca da delicadeza e feminilidade das Eleocharis minima. |
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4.2. Fantasia
O design de um aquário é um espelho da fantasia. O aquário é uma paisagem artificial, montada, portanto, podemos utilizar composições irreais, fantásticas, sem perder relação com a natureza.
A fantasia é uma motivação poderosa e muito comum para o design aquarístico. Muitos dos mais belos aquários do mundo todo foram montados inspirados e baseados no apurado senso de fantasia do ser humano. Um dos objetivos de muitos aquários também é “esbanjar” fantasia. A criatividade evocada pelo senso de fantasia resulta freqüentemente em aquários com paisagens poderosas, que aparentam serem maiores do que realmente são (outro grande objetivo do design aquarístico).
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O pintor Salvador Dalí quase sempre se utilizava de situações extremamente fantásticas e irreais. No entanto, é possível
observar técnicas de design artístico mesmo em suas pinturas caóticas e confusas. Esse é a forma correta e perfeita de
utilizar a fantasia. |
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4.2.3. Personificação – Relação Artista-Aquário
Um dos objetivos do design aquarístico é idealizar a natureza, No entanto, freqüentemente nos esquecemos de outra característica muito importante para transformar um aquário em uma verdadeira obra de arte: a inserção de qualidades humanas à paisagem natural.
Em muitos casos, o que apreciamos na arte e na natureza é muito similar (ou quase idêntico) a coisas que apreciamos em nós. Não é besteira dizer, portanto, que um trabalho artístico é um esforço de personificação. Um artista freqüentemente adjetiva seu trabalho com qualidades humanas.
O grande sucesso em um aquário está em saber se tais qualidades e emoções humanas que se queira evocar são diretamente proporcionais ao que o trabalho artístico na paisagem aquarística remete. Se conseguirmos tal objetivo, o aquário torna-se muito mais interessante, cheio de energia e história. Um aquário sem referência artística/emocional nenhuma, montado apenas com regras e técnicas de paisagismo, inevitavelmente torna-se estável demais, sem movimento e melancólico. É a mesma coisa no caso de uma fotografia: ela pode ter enquadramento, luz, sombra, definição, composição perfeitos, se não tiver significado, simbologia e história, perde o interesse, tornando-se vazio e banal.
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Um dos meios de criar a personificação é criando pontos de tensão visual em um aquário exageradamente estruturado. Esses pontos frequentemente são criados pelo artista/aquarista de forma quase inconsciente, quando por exemplo ele encontra um "cantinho" de destaque em seu aquário para colocar sua planta favorita, mesmo que ela esteja "alheia" ao resto da paisagem. A Blyxa sp. é uma boa planta para se criar pontos de tensão visual. |
Essa característica de personificação do artista não deve ser tomada como base, embora seja bastante eficaz, deve-se sempre levar em consideração as técnicas; um aquário bem montado é aquele que possui um equilíbrio entre arte-técnica, emoção-razão. Considere a personificação apenas como mais uma ferramenta na montagem de uma paisagem aquarística, assim como o uso de linhas e formas, cores, texturas, ênfase, etc.
5. TIRANDO LIÇÕES DA PINTURA DE PAISAGENS (PINTURA ACADÊMICA)
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Na obra "Monte Saite Victoire", de Paul Cezzane, e nessa montagem de Takashi Amano, é fácil perceber o uso do espaço nivelado e planos de cor e textura, a fim de dar impressão de crescimento e soberania da montanha sobre o vale, no quadro, e das rochas sobre o carpete de plantas, no aquário. |
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Os pintores de paisagens lidam com técnicas e desafios muito semelhantes aos que nós, aquaristas, enfrentamos. A grande semelhança está em criar paisagens semi-estáticas (levando em consideração o crescimento das plantas e movimento dos peixes). A grande diferença, óbvio, é que o pintor faz isso em uma tela, enquanto o aquarista o faz geralmente em uma cuba de vidro. No entanto, os objetivos são os mesmos: exaltação do belo, do esteticamente agradável, retratação de emoções e sensações, e fazer com que a cena pareça interessante e significativa ao expectador. Atingir isso, como já foi incansavelmente discutido aqui, requer algumas convenções úteis ao artista.
Os dois aspectos mais importantes são:
Apenas pintar uma cena da natureza, sem inserção de elementos/situações fantásticas é uma tarefa no mínimo ineficiente. A pintura não terá impacto, pois não existe composição, ênfase, interpretação. É devido a isso que o artista trabalha na composição, freqüentemente utilizando o ponto de vista, ao invés de simplesmente registrar uma paisagem em uma tela.
A pintura de paisagens (bem como as outras formas de arte), são em sua maior parte concebidas a partir de características humanas. Cada parte de uma pintura, escultura, ou aquário, por mais estáticos e estáveis que possam aparentar, são freqüentemente humanísticas – experiências, emoções, qualidades. Se você não conseguir aprender nenhuma técnica de design aquarístico, ao menos aprenda isso.
Não há nenhuma razão de pintar um quadro, compor uma música ou tirar uma fotografia sem que haja uma interpretação e significado que o artista queira compartilhar com seus expectadores. No design aquarístico é a mesma coisa.
O artista/aquarista deve contar uma história. E essa história deve contar coisas humanas ao seu ouvinte. Se o aquarista escolhe uma planta para compor o paisagismo, se ele forma moitas densas ou deixa plantas sozinhas, isoladas, é porque quer demonstrar sensações perante tal planta. O mesmo ocorre ao escolher os peixes, ou colocar uma planta em destaque ou ocultá-la no fundo do aquário. Isso freqüentemente ocorre, mas inconscientemente. Saber trabalhar isso só vai enriquecer ainda mais suas montagens, apurando seu senso artístico.
5.1. Relevo
Um dos elementos básicos da natureza é o relevo. Trabalhar o relevo é uma das grandes formas de conseguir retratar a emoção que se quer transmitir. Utiliza-se freqüentemente elementos inertes, como o substrato, rochas e troncos. Você pode utilizar o vocabulário da arte, descrito no início desse artigo.
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Note a curva “vazia”, quase no centro da composição. Como o vocabulário descreve, essa curva remete naturalidade, calma e estabilidade, inclusive porque que a curva está “apoiada” sobre as moitas de plantas. |
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Esse é um aquário com um relevo suave e predominantemente horizontal. Remete fluência, calma, ritmo e feminilidade. |
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Esse aquário é uma prova de como se pode “misturar” o vocabulário mantendo a composição harmoniosa. Inclusive esse aquário utiliza um vocabulário paradoxal, onde o tronco irregular com plantas machos (Microsorum pteropus), transmite atividade, energia e caos, contrasta com o carpete de plantas fêmeas (Glossostigma elatinoides) com relevo suave, quase plano. |
5.2. Perspectiva
A perspectiva é freqüentemente utiliza para trabalhar o “perto” e o “longe”, o alto e o baixo. Juntamente com o relevo e o senso de fantasia, podemos criar situações ilusórias, como uma planta pequena acima de uma planta maior. Ou podemos nos permanecer conservadores e seguir a tão conhecida regra dos três planos, onde plantas pequenas ficam na frente, seguidas pelas intermediárias, e por fim as plantas altas no fundo. Isso depende, mais uma vez, da tendência do artista e suas emoções.
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Esse é um exemplo de montagem mais conservadora. Plantas carpete na frente, seguida por mais altas logo atrás. |
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Aqui temos uma montagem bem mais ousada. Note que plantas bem altas estão localizadas à frente de plantas baixas. |
6. DESCONSIDERANDO A NATUREZA (???)
Você certamente deve estar achando esse título sem sentido e contraditório. Se nossa missão como aquaristas/artistas é retratar a natureza, como podemos desconsiderá-la? Acontece que, atualmente, o paisagismo aquarístico está mais voltado para os interesses artísticos do que a retratação do natural.
Basta você observar um desses Nature Aquariums mais famosos, e depois observar o interior de um lago rio ou riacho, e tentar encontrar alguma cena semelhante: provavelmente não terá sucesso. Portanto, é necessário compreender que a maiora parte das formas, composições e situações encontradas na natureza são irrelevantes para o paisagismo aquarístico artístico.
O fato é que as formas de crescimento das plantas, bem como composições encontradas na natureza possuem certas “falhas” esteticamente falando, já que a natureza não segue regras a fim de exaltar a beleza (embora ela consiga isso espontaneamente, com freqüência). Geralmente, essas composições naturais não contribuem para a formação de um design coeso e uma forma de comunicação artística eficaz. Sendo assim, tais composições não se encaixam no que podemos considerar bonito, esteticamente agradável e principalmente, artístico.
[Obs.: Essa linha de pensamento não quer dizer que você deva eliminar por completo de seu aquário os elementos encontrados na natureza ditos “esteticamente imperfeitos”. Há uma maneira artística de aproveitar essas imperfeições, normalmente elas são utilizadas para dar movimento – além da naturalidade, óbvio – à montagem.]
Existem várias ferramentas utilizadas para a “não-naturalização” da paisagem do aquário. Elas podem ser escolhidas de acordo com o que se quer retratar no aquário, utilizadas em conjunto ou isoladamente. Algumas dessas técnicas são:
6.1. Simplificação
Alguns artistas freqüentemente utilizam a técnica da simplificação. No design aquarístico, ela consiste em poucos elementos, utilizados ou não em quantidade. Esse tipo de montagem relaxa a percepção do expectador, favorecendo a visão geral da paisagem.
Plantas, peixes e outros seres que possam povoar um aquário são organismos muito complexos. Freqüentemente em aquários estamos lidando com dimensões reduzidas, então muitos artistas escolher trabalhar apenas com estruturas e composições básicas, porém esteticamente ricas e emocional e artisticamente profundas.
Outra característica dessa técnica é que você esclarece aos seus expectadores todas as emoções e sentimentos que quer exaltar de forma clara e geral. Quanto mais “básico” o aquário, mais generalizado e objetivo ele é. Deve-se tomar muito cuidado, porém, para que o paisagismo não se torne pobre e vago.

6.2. Caos
É uma técnica oposta à simplificação. E uma das mais freqüentes, especialmente no Nature Aquarium. Embora pareça contraditório, já que nossa intenção é criar paisagens cheias de harmonia e equilíbrio, o uso de situações caóticas é muito eficiente, pois um conjunto de elementos “impecavelmente desorganizados” pode resultar em uma composição geral equilibrada e agradável. Um bom exemplo disso são as árvores; se você examinar seus elementos isoladamente, notará a confusão e a desorganização, mas ao observar a árvore como um todo, notará uma coesão que muitas vezes beira à perfeição.

6.3. Ordem
Uma outra ferramenta artística que pode ser utilizada na montagem de paisagens artísticas em aquários é o conceito básico de ordem, tal qual a ordem dos números: 1-2-3. Esse conceito se refere à disposição dos elementos utilizando a ordem direita - para trás – esquerda, direita – esquerda – para trás, etc. Essa técnica é a base dos layouts “ilha”, em “u” ou triangulares, muito conhecidos como técnicas básicas de paisagismo aquarístico.
Essas composições baseadas na ordem têm como objetivo principal dar ritmo à paisagem, de forma que a visão do expectador “passeie” pelo aquário de forma fluente e equilibrada, sem “paradas” ou necessidade de observar a paisagem mais de uma vez para perceber sua harmonia. Caso contrário, o expectador literalmente se cansa de observar o aquário. Trabalhar o relevo auxilia muito nessa tarefa.

Um layout em “u”, por exemplo, faz com que o expectador possa iniciar sua observação em qualquer ponto do aquário, que a própria paisagem o “conduzirá” por ela toda de forma agradável, harmoniosa e equilibrada, sem interrupções.
É devido à essa ordem que muitos aquaristas especialistas em paisagismo aquático não recomendam o uso de elementos em destaque exatamente no centro do aquário. O elemento fatalmente irá interromper a visão do expectador, desequilibrando a paisagem. Ao contrário do que parece, a ordem, artisticamente falando, abomina características como simetria, proporção e regularidade excessivos.
Como artista, é sua responsabilidade tornar a composição da paisagem de seu aquário ordenada. Atingindo esse objetivo, ela torna-se interessante aos olhos do expectador, pois o “convida” a passear por seu relevo, perspectiva e outros elementos.
6.4. Conclusão - A Ousadia e Seus Limites
Da mesma forma que existem várias técnicas artísticas, existem meios de violar esse princípios. Contudo, primeiramente deve-se conhecer todas essas regras, para aí sim ter a capacidade de ousar e desobedecer tais “leis”. As regras em si não são importantes. O importante é o senso estético, refinado e apurado a partir do uso de tais ferramentas. Como artista, você pode sim, atingir seus objetivos de forma criativa, no entanto, é bom conhecer as técnicas primeiro.
Sendo assim, deve-se trabalhar profundamente em tais técnicas a fim de lapidar o seu senso criativo. Na posição de artista, é comum que você crie um estilo, tendências e métodos alternativos para montar uma paisagem aquática “perfeita”. Aliás, isso é a arte.
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O estilo e a técnica do artista Romero Britto é um exemplo de ousadia e "desobediência" aos princípios da arte. Ele cria obras notavelmente femininas utilizando elementos masculinos (composições angulares e uso de cores fortes). O resultado sem dúvida é muito belo, no entanto, muitos críticos não consideram a obra de Britto como arte, mas sim como "entretenimento", alegando que os quadros do artista não inspiram emoção ou sensação alguma em seu expectador, apenas exclamações sentimentalmente vagas ("que bonitinho!"). |
7. REFINANDO E DIRECIONANDO A COMPOSIÇÃO
Depois das concepções básicas de design e composição, há outros interesses que devem ser considerados para a montagem de uma paisagem aquática. Esses interesses auxiliam a “amarrar” os elementos da paisagem um ao outro, de forma coesa e fluente, bem como exaltar qualidades e ocultar falhas. Sendo assim, tais ferramentas são importantes para conduzir os olhos do expectador pela paisagem: nosso objetivo primordial.
7.1. Evitando a Dissonância Cognitiva
A dissonância cognitiva é uma situação mental que gera desconforto e inspira pensamentos e sensações de conflito. Por exemplo, você olha para um aquário, aprecia o carpete (você gostou do aquário), mas achou as plantas de fundo mal podadas (você não gostou do aquário); você criou uma dissonância cognitiva em sua cabeça, pensamentos opostos a respeito de um mesmo assunto. Isso é muito negativo quando se trata de paisagem aquarística.
Pra falar a verdade, seu expectador quer encontrar algo realmente interessante e extraordinário em sua composição. Se você puder permitir que ele encontre isso, bem como evitar as falhas, o expectador pode rapidamente (consciente ou inconscientemente) decidir se gostou do aquário ou não. Como diz o clichê, a primeira impressão é a que fica, e gostando uma vez do aquário, é difícil convencê-lo do contrário.
Sendo assim, ajude o seu expectador a enxergar somente o que é bom em sua paisagem, não descobrindo o que é ruim (que sempre há, não existe aquário perfeito). Uma vez que enxergarem o “lado bom” da sua paisagem, as falhas serão ignoradas ou nem descobertas.
7.2. Ponto de Interesse
Muitas vezes, ao observar uma paisagem natural, não trabalhada, você observar apenas um ponto ou região proeminente. Você pode até desconsiderar o resto da paisagem, contudo, essa característica “especial” de tal região só existem graças ao resto da paisagem, dos pontos secundários. Em aquários, esse recurso é trabalhado utilizando a ferramenta ênfase, como já vimos acima.
Uma das formas de trabalhar o ponto de interesse é destacando-o do resto, tornando-o “especial”, ou vice-versa, quer dizer, neutralizando o impacto que o resto da composição tem sobre a região a ser destacada. As duas formas podem parecer a mesma coisa, mas não são. Uma planta vermelha entre outras verdes se destaca na paisagem pelo simples fato de sua coloração ser diferente. Um conjunto de plantas pode se destacar utilizando plantas “neutras” ao redor ou trabalhando o relevo voltando-se para tal planta. As duas maneiras são descritas nas figuras I e II, respectivamente.
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8. FALHA DE COMUNICAÇÃO
Você já parou pra pensar como é fácil sermos mal interpretados e entendidos? A comunicação em geral é muito complexa e variada, portanto, é freqüente e natural que ocorram “falhas de sintonia” entre o comunicador e seu ouvinte, causando muita confusão. Isso ocorre porque o ser humano está acostumado a se comunicar em diversos níveis, e esses níveis são identificados a partir de detalhes altamente sutis: entonação, volume e ritmo da voz, expressão, escolha das palavras, etc.
Em elementos estáticos, como uma carta, um e-mail, um quadro ou um aquário, a comunicação torna-se ainda mais difícil, já que tais detalhes estão ausentes. Sendo assim, ao tentar divulgar uma mensagem utilizando o paisagismo aquático, a não ser que você se esforce utilizando-se de recursos para tornar as emoções e sensações claras e consistentes, a comunicação não ocorre. A linguagem artística é tão rica e complexa quanto a linguagem falada, cabe a nós saber aproveitar os recursos que a arte nos oferece.
8.1. Composição
Você já sabe que diversas formas podem inspirar diversas sensações (como vimos no vocabulário artístico, no início desse artigo), bem como já sabe que tipos diversos de decorações, bem como espécies diferentes de plantas, peixes e invertebrados podem auxiliar na transmissão do sentimento desejado ao expectador. A etapa seguinte é unir esses elementos de forma coerente e equilibrada.
A composição é as linhas e formas, as cores, as texturas, o gênero das espécies de plantas e peixes, a velocidade de crescimento das plantas, a movimentação, nível de atividade e tamanho dos peixes, bem como suas características comportamentais, o relevo, o ponto focal, a perspectiva, a ordem... Ufa! Criar uma composição pode não ser tão fácil quanto parece!
Deve-se ter em mente que cada região do aquário tem que ser trabalhada a fim de transmitir uma ou mais mensagens de forma consistente. Por favor, não coloque uma planta num local apenas para “tapar um buraco”, coloque-a porque você gosta dela, porque ela possui formas interessantes, que inspiram certas sensações.
Uma forma eficiente de descobrir se seu aquário transmite uma mensagem consistente é, com o vocabulário artístico em mãos, fazer perguntas a cada elemento da paisagem, individualmente. As respostas não precisam ser idênticas, mas compatíveis entre si e com o objetivo geral. Contudo, você não deve se acanhar. Como estamos lidando com a arte, caso queira, é totalmente aceitável criar mensagens paradoxais e contraditórias. Caso não queira, você não é obrigado a fazer um aquário só de plantas fêmeas, ou um aquário só de “tranqüilidade”, etc. Tome cuidado, portanto, para não construir mensagens confusas e sem sentido algum; a mensagem se perde e o paisagismo perde sua integridade. Sempre utilize como exemplo uma orquestra.
Analisando as respostas você percebe os excessos e carências de sua montagem, e saberá onde e como trabalhá-las utilizando as ferramentas técnicas citadas nesse artigo. A solução para tal falha pode demorar a ser executada, mas ao menos você saberá onde dirigir seu esforço.
8.2. Erros de Composição
Além das falhas comuns presentes na criação de um paisagismo, há erros de composição a serem evitados. São erros que “prendem” e distraem o expectador para uma certa região ou elemento da paisagem, não propositalmente, o que “quebra” a integridade da paisagem, bem como sua harmonia.
8.2.1. Volta à Origem
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Quando uma linha de um ou mais elementos, seja uma planta ou tronco, “retorna” ao seu ponto de origem, geralmente fazendo uma curva, tal característica distrai o expectador de forma grosseira e forçada. As curvas em uma paisagem devem ser abertas, suaves e naturais. Isso freqüentemente ocorre em plantas altas, cuja ponta pode enroscar no substrato ou em outras plantas/elementos, formando uma curva forçada e artificial. |
8.2.2. Elemento(s) Principal(is) Inconsistente(s)
Quando o elemento principal do aquário, como por exemplo, a linha do relevo, a linha do layout, o ponto focal, é confuso, não identificável e inconsistente, isso criar uma situação de conflito e incômodo. Isso ocorre com ponto focal exatamente no centro, criando uma simetria forçada e exagerada, bem como a existência de dois ou mais pontos focais isolados, ou relevo mal trabalhado.
8.2.3. Erros de Posição
Isso freqüentemente ocorre. É o caso da “planta certa no lugar errado”. A posição dos elementos está intimamente ligada à formação da composição do paisagismo aquático, portanto os elementos do aquário devem ser, mais que bem escolhidos, bem posicionados na paisagem. Essa característica deve ser trabalhada a fim de evitar uma impressão má do seu aquário.
8.2.4. Simetria
A simetria raramente é encontrada na natureza. Portanto, composições simétricas geralmente dão impressão de artificialidade.
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O artista Piet Mondrian possui um estilo denominado neo-plasticismo, baseado em algumas idéias do cubismo. Apesar de suas obras possuirem elementos exclusivamente geométricos, Mondrian não utiliza a simetria. Note no quadro "Broadway Boogie Woogie", que nenhuma linha principal está exatamente no centro, e as duas linhas mais próxima dessa região, verticais, são compensadas pela assimetria dos lados (3 linhas na esquerda e duas na direita). |
9. CONCLUSÃO
Nenhuma arte é bem sucedida sem técnicas. Os fundamentos de um tipo de arte são sempre relevantes e sempre necessários. No entanto, artistas hábeis, criativos e ousados, podem violar inteligentemente tais fundamentos e criar a arte com muito sucesso, mas se, e somente se souberem trabalhar os riscos que corre ao desobedecer tais regras. Isso só é possível conhecendo tais técnicas profundamente, a ponto de você poder “lapidá-las” de acordo com seu estilo, suas tendências, e principalmente, suas emoções. Sendo assim, as técnicas não são ignoradas, apenas moldadas de acordo com o desejo do artista. Sem os fundamentos e as técnicas a arte simplesmente não existe, seja qual for sua vertente: pintura, fotografia, cinema, escultura, paisagismo aquático, etc.
Vários exemplos disso podem ser encontrados na comunicação ou na vida em sociedade, por exemplo. Imagine que você encontre um amigo, e ele lhe cumprimenta dizendo “olá!”. Mas você resolveu que, ao invés de dizer “olá”, irá dizer “pipoca!” para expressar um cumprimento. Certamente seu amigo irá lhe perguntar se está tudo bem com você. Essa estória cômica retrata bem isso. Toda ousadia tem limite, você é quase obrigado a dizer “olá!” para cumprimentar pessoas, já que dificilmente conseguirá convencer todos a dizerem “pipoca!” para tal fim. Com a arte é a mesma coisa, ela está limitada a fundamentos básicos que a definem como arte.
Voltando essa estória para o mundo do paisagismo aquático, vamos imaginar que você resolveu colocar uma imensa Echinodorus latifolius em seu aquário, exatamente no centro e na frente, a atrás da mesma, um carpete de Glossostigma elatinoides, que chegam a aparecer “amedrontadas” diante de uma planta tão forte e majestosa. Você adorou seu aquário e se orgulha dele. No entanto, ao mostrá-lo para seus amigos aquaristas, fica óbvia a reprovação da maioria. Você pode não entender, ou achá-los “quadrados” demais, mas o fato é que técnicas básicas de paisagismo devem ser seguidas pelo simples fato de criar um senso de estética básico, comum a todos que vêem o seu aquário. Você pode ter um carpete lindo e denso, uma Echinodorus viçosa e com as folhas mais translúcidas já vistas, se você não trabalhar os elementos de forma artística e comunicativa, o aquário perde o interesse e o paisagismo “a sua razão de ser”.
Esse caso é como o “pipoca” da estória acima. Aquários bem sucedidos são aquários ricos, cheios de histórias e significados, bem como estética e artisticamente corretos, coesos e harmoniosos. Aquários fracassados são ou aqueles que são pobres emocionalmente falando, ou aqueles que nos querem dizer “pipoca”.
Esse artigo foi uma tentativa de inserir a arte e a emoção na criação de paisagens aquarísticas, já que a mesma é feita de forma extremamente técnica, beirando a banalidade. Inserir a arte em uma paisagem não é abrir mão das técnicas, mas sim enriquecê-la. Alguns conselhos para “atiçar” seu senso artístico:
• Aprenda a linguagem artística. Ela é muito mais complexa e rica do que foi descrita nesse artigo;
• Conheça outros tipos de arte. Você pode tirar lições valiosíssimas a partir de outras vertentes;
• Observe e analise como vários artistas de vertentes diversas desenvolvem seus trabalhos com originalidade e audácia;
• Esqueça a idéia de que o paisagismo aquarístico está “preso à regras” e comece a considerá-lo como “preso às emoções”;
• Não confunda natural com bonito;
• Crie seu estilo, obedeça a sua tendência. Isso o torna mais original e criativo, mas claro, sem esquecer os princípios da arte;
Saiba que esse artigo é apenas uma introdução à técnicas e fundamentos artísticos voltados ao paisagismo aquático. Agora, cabe a você estudar mais e mais a fim de enriquecer seu conhecimento ;)
Flávia Regina Carvalho, fevereiro de 2004